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Saúde baseada em valor na oncologia: por que o futuro do cuidado depende de medir o que realmente importa

2 de setembro de 2026

A oncologia vive um momento de grandes avanços. Novas terapias, tecnologias diagnósticas e estratégias de tratamento ampliam as possibilidades de cuidado e contribuem para que cada vez mais pacientes tenham melhores perspectivas diante do câncer.

Ao mesmo tempo, o cuidado oncológico se tornou mais complexo. As jornadas são mais longas, envolvem diferentes profissionais e modalidades terapêuticas e demandam cada vez mais recursos.

Nesse cenário, uma pergunta ganha importância para centros especializados, profissionais de saúde, pacientes, operadoras e todo o sistema: como saber se os recursos empregados estão, de fato, produzindo os melhores resultados possíveis para o paciente?

É nesse contexto que a saúde baseada em valor (Value-Based Health Care – VBHC) ganha relevância.

Para além de uma metodologia de gestão, o VBHC propõe uma mudança na forma de pensar o cuidado: deslocar o foco do volume de procedimentos realizados para os resultados que realmente importam para quem recebe o cuidado, considerando também os recursos necessários para alcançá-los.

O que significa gerar valor em saúde?

Durante muito tempo, parte importante da avaliação dos serviços de saúde esteve relacionada ao volume: número de consultas, procedimentos, exames, internações ou tratamentos realizados.

Esses indicadores continuam sendo importantes para compreender a operação de uma instituição. Porém, eles não respondem sozinhos à pergunta mais importante: qual foi o resultado produzido por todo esse cuidado?

Na perspectiva da saúde baseada em valor, o foco passa a estar na relação entre desfechos relevantes para o paciente e os recursos utilizados para alcançá-los.

Isso significa olhar para além da quantidade de atendimentos e considerar aspectos como resultados clínicos, segurança do paciente, qualidade de vida, capacidade funcional, controle de sintomas, experiência durante a jornada, eficiência do cuidado, utilização adequada de recursos e sustentabilidade do sistema.

Por isso, VBHC não deve ser confundido simplesmente com redução de custos.

Importante: fazer mais com menos não é necessariamente gerar mais valor.

Um cuidado de valor é aquele capaz de produzir resultados relevantes para o paciente de maneira segura, coordenada e sustentável.

Por que essa mudança é especialmente importante na oncologia?

A oncologia apresenta características que tornam essa perspectiva particularmente relevante.

O cuidado de um paciente com câncer raramente se resume a um único procedimento ou profissional.

Dependendo do diagnóstico e da trajetória clínica, a jornada pode envolver investigação diagnóstica, cirurgia, quimioterapia, radioterapia, imunoterapia, terapias-alvo, acompanhamento clínico, reabilitação, cuidados paliativos e diferentes profissionais de saúde.

Isso significa que o resultado do cuidado não pode ser compreendido olhando apenas para uma etapa isolada.

Um tratamento pode ser tecnicamente adequado, por exemplo, mas ainda assim estar associado a uma experiência ruim, dificuldades de acesso, efeitos adversos importantes ou fragmentação da jornada.

Da mesma forma, reduzir determinado custo isoladamente não significa necessariamente gerar valor se isso resultar em piora dos desfechos ou da qualidade de vida.

Na oncologia, portanto, o valor precisa ser observado ao longo de toda a jornada do paciente.

O sucesso do tratamento não termina no resultado clínico

Quando pensamos em resultados em oncologia, indicadores como sobrevida, resposta ao tratamento, controle da doença e ocorrência de eventos adversos são fundamentais.

Mas eles não contam toda a história. Para o paciente, também pode ser importante saber:

  • Como será sua qualidade de vida durante e depois do tratamento?
  • Ele conseguirá manter suas atividades cotidianas?
  • Como será o controle dos sintomas?
  • Quais efeitos adversos enfrentará?
  • Quanto tempo precisará esperar para iniciar o tratamento?
  • Terá facilidade para acessar os diferentes profissionais?
  • Sentirá que existe continuidade entre as diferentes etapas do cuidado?
  • Será ouvido sobre suas prioridades e necessidades?

Essas perguntas mostram por que uma abordagem baseada em valor precisa incorporar a perspectiva do próprio paciente.

Instrumentos como os Patient-Reported Outcome Measures (PROMs), que capturam resultados relatados diretamente pelos pacientes, e os Patient-Reported Experience Measures (PREMs), voltados à experiência do paciente, ajudam a ampliar essa visão.

O paciente deixa de ser apenas o destinatário do cuidado e passa a ser também uma fonte essencial de informação sobre seus resultados.

Valor em oncologia tem mais de uma dimensão

Uma das maiores contribuições do VBHC é justamente ampliar a definição de valor. Na oncologia, podemos pensar em diferentes dimensões que se complementam.

  • Valor clínico: o tratamento alcançou os resultados clínicos esperados? Houve controle da doença? Ocorreram complicações ou eventos adversos evitáveis?
  • Valor para o paciente: o cuidado contribuiu para preservar ou melhorar sua qualidade de vida, funcionalidade e bem-estar?
  • Valor na experiência: o paciente teve acesso adequado, recebeu informações claras e percebeu continuidade e coordenação ao longo da jornada?
  • Valor operacional: os processos são coordenados? Existem gargalos, retrabalho ou variações que poderiam ser reduzidas?
  • Valor econômico: os recursos estão sendo utilizados de maneira adequada e sustentável em relação aos resultados produzidos?

Essas dimensões não devem ser analisadas de forma isolada. O verdadeiro desafio é compreender como elas se relacionam.

Por exemplo, uma redução no tempo de espera pode melhorar a experiência do paciente e, dependendo do contexto, contribuir para melhores resultados clínicos. Da mesma maneira, uma melhor coordenação entre profissionais pode reduzir retrabalho, evitar complicações e utilizar os recursos de maneira mais eficiente.

É justamente essa visão integrada que diferencia uma gestão baseada em valor de uma gestão orientada apenas por indicadores isolados.

Da quantidade de dados à capacidade de aprender

A transformação para um modelo baseado em valor depende de dados. Mas ter dados não significa, por si só, gerar valor.

Um centro oncológico pode possuir centenas de indicadores e ainda ter dificuldade para responder quais aspectos de sua assistência precisam ser melhorados.

O verdadeiro potencial está em transformar dados em conhecimento e conhecimento em ação.

Esse processo pode ser compreendido como um ciclo:

Medir → Compreender → Comparar → Identificar oportunidades → Implementar melhorias → Medir novamente.

Nesse sentido, indicadores não devem ser vistos apenas como ferramentas de controle. Eles são instrumentos para aprender sobre o próprio cuidado.

Quando um centro consegue identificar diferenças de desempenho entre linhas de cuidado, compreender as causas dessas variações e compartilhar práticas que produzem melhores resultados, os dados deixam de ser apenas registros históricos e passam a orientar decisões.

O poder do benchmarking na construção de valor

Essa capacidade de aprender se torna ainda mais relevante quando existe comparação entre diferentes centros.

Um resultado isolado pode mostrar que determinado indicador melhorou. O benchmarking permite acrescentar outra pergunta: esse resultado é bom em comparação com o que outras instituições estão conseguindo alcançar?

A comparação estruturada pode ajudar a identificar variações, reconhecer boas práticas e compreender onde existem oportunidades de melhoria.

É nesse ponto que uma rede de centros especializados pode desempenhar um papel importante. Quando instituições compartilham experiências, indicadores e aprendizados, o conhecimento deixa de ficar restrito a uma única organização.

A inteligência coletiva pode acelerar a identificação de soluções e favorecer uma cultura de melhoria contínua.

Para a ONCOH, essa perspectiva é particularmente relevante: conectar centros especializados, estimular o compartilhamento de conhecimento e utilizar dados para apoiar a evolução da assistência faz parte de uma visão na qual a construção de valor não acontece de maneira isolada.

VBHC é uma mudança de cultura

Por isso, implementar saúde baseada em valor não significa simplesmente adotar uma nova ferramenta, criar um dashboard ou acrescentar novos indicadores à rotina.

A mudança é mais profunda. Ela envolve transformar as perguntas que orientam a gestão e a assistência.

Em vez de perguntar apenas…Passamos a perguntar…
Quantos pacientes atendemos?Quais resultados estamos entregando a esses pacientes?
Quanto gastamos?Quais resultados alcançamos com os recursos utilizados?
Qual é o desempenho do nosso centro?Como nossos resultados se comparam às melhores práticas e onde podemos melhorar?
O paciente está satisfeito com o atendimento?Como a experiência do paciente pode ser compreendida e aprimorada ao longo de toda a jornada de cuidado?
Estamos seguindo os processos estabelecidos?Quais mudanças nos processos podem gerar melhores resultados para os pacientes?

E, principalmente, em vez de considerar o cuidado como uma sequência de procedimentos independentes, passamos a enxergá-lo como uma jornada integrada, cujo objetivo é produzir resultados que realmente importam para o paciente.

O futuro da oncologia será cada vez mais orientado por valor

A evolução da oncologia continuará trazendo novas terapias, tecnologias e possibilidades de tratamento. Mas incorporar inovação não será suficiente.

Será cada vez mais importante compreender quais soluções produzem os melhores resultados, para quais pacientes, em quais circunstâncias e com quais recursos.

Essa mudança exige integração entre profissionais, instituições, pacientes, operadoras e demais participantes do sistema de saúde.

Também exige capacidade de medir resultados, compartilhar conhecimento e transformar evidências em melhoria contínua.

Nesse cenário, a saúde baseada em valor deixa de ser apenas uma alternativa de gestão. Ela se torna uma forma de pensar o futuro do cuidado oncológico.

Porque o objetivo final não é simplesmente fazer mais, utilizar mais tecnologia ou coletar mais dados.

É garantir que cada decisão, cada recurso e cada etapa da jornada contribuam para aquilo que realmente importa: oferecer ao paciente o melhor resultado possível, com qualidade, segurança, experiência e sustentabilidade.

Identifica-se com essa jornada? Entre em contato e saiba mais sobre ela.

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